Quando e como corrigir a postura da pega no lápis?

Há dois anos eu estou trabalhando com crianças mais velhas – 5 anos e começando a alfabetização. No começo foi um grande desafio, pois eu sempre fui muito apaixonada pelos pequenos e resistente em sair dessa faixa etária.

Não preciso nem dizer que já mudei muito de ideia quanto a coisas que eu acreditava piamente, e a “pega” correta da criança no lápis é uma delas.

Sempre achei que essas questões motoras eram refinadas e desenvolvidas com o passar do tempo e que não tinha a necessidade de ser “forçada”. Na verdade, em condições típicas, a pega é sim aperfeiçoada com o tempo, mas ela precisa começar do jeito correto.

Hoje eu percebo que a criança começa a se acostumar com o jeito errado e aquilo fica muito confortável, se tornando um vício que depois é mais difícil de mudar.

Portanto, faz parte do nosso papel corrigir a pega de crianças a partir dos 3 anos e meio.

Passo a passo:

1- Unir os dedos indicador e polegar fazendo uma pinça

2- Colocar uma bolinha de papel amassada para a criança segurar com os 3 dedos que sobraram.

PRONTO! É simples assim.

Dessa forma, após fazermos o passo a passo com a criança, todos os momentos que virmos a criança segurando o lápis errado, devemos corrigir. Nem precisa falar, porque na maioria das vezes o cérebro da criança já entendeu, mas o processo motor é mais demorado mesmo, só de corrigir na própria mãozinha deles já resolve.

 

 

 

Criança já tem padrão de beleza?

Se você acha que criança não se preocupa com padrão de beleza, olhe de novo para a foto dessa postagem. Uma menina que brinca de Barbie certamente a coloca como seu ideal de beleza. E hoje eu não vou falar sobre cor do cabelo/cor da pele, ou outras coisas que a Barbie representa, mas sobre o corpo.

Dizemos hoje em dia que não se deve elogiar ou diminuir corpo de ninguém, principalmente feminino. Assim, diminuímos a necessidade de se enquadrar em alguma “beleza” impossível, mas precisamos fazer além disso.

É claro que é importante eliminar do nosso vocabulário frases como: “Se continuar comendo assim vai ficar enorme”, ou “Como você está magrinha, não está comendo?”. Ninguém precisa comentar sobre o corpo de ninguém, não somos exposição. Mas também precisamos ensinar nossas crianças que o que importa não é a nossa carcaça, mas sim o que temos por dentro. Nosso corpo é nosso e devemos amá-lo do jeitinho que ele é. Me faça um favor e ao invés de dizer algo tóxico diga a uma menina que ela é bonita do jeito que ela é, e que não precisa mudar em nada.

Já que não podemos mudar a indústria e fazer bonecas mais parecidas com a realidade, vamos pelo menos mudar o nosso discurso. Dessa forma, tenho certeza que nossa crianças se sentirão mais confiantes e com menos pensamentos autodestrutivos por aí.

 

 

 

 

Habilidades socio/emocionais são mais importantes do que as acadêmicas em crianças em idade pré escolar

Pais de crianças da pré escola costumam fazer as seguintes perguntas:

“Meu filho já sabe escrever quantas palavras?”

“Até quando ela vai escrever o nome errado?”

“Já sabe contar até 100?”

Embora a educação infantil crie uma base importante para as habilidades acadêmicas, a verdade é que as habilidades socio/emocionais vem antes de aprender a escrever o próprio nome ou contar até 50.

Vou explicar: uma criança que sabe expressar seus sentimentos, sabe resolver conflitos de maneira desejável, sabe participar em grupo de brincadeiras será, inegavelmente, um adulto que terá mais sucesso na sua vida pessoal e profissional.

Ficamos muito preocupados em exigir resultados, as vezes mais concretos das crianças, mas isso é só uma ansiedade nossa (adultos). Vamos olhar para as conquistas dos nossos filhos de maneira diferente.

Que criança está pronta para iniciar o primeiro ano escolar? Essas são as habilidades que deveriam ser avaliadas:

1- Brincar bem com os amigos:

Saber se convidar para participar de uma brincadeira, fazer amizades e até mesmo expressar que não gosta daquela brincadeira e procurar outra são habilidades que formam uma criança que sabe compartilhar, esperar a sua vez, negociar e experimentar. Brincadeiras livres exigem que a criança trabalhe resolução de conflito sem a participação de um adulto, negociação de divisão de tarefas e diferentes papeis na brincadeira: uma vez eu sou o líder, outra você é.

2- Resolver conflitos:

Saber resolver um conflito sozinho, na minha opinião, é a habilidade mais importante que uma criança pode adquirir. Ter maturidade para lidar com os conflitos que podem aparecer: “ninguém quer brincar comigo”, “não quero dividir minha boneca”, “fulano me bateu”, entre inúmeros outros, formam uma criança segura que sabe lidar bem com um possível fracasso. Quando encorajamos as crianças a lidar com os problemas sozinhas, ou a ajudamos a criar estratégias para tal, estamos incentivando a autonomia de pensamento, o olhar crítico para o que não deu certo e o que pode melhorar.

3- Como nomear e reconhecer sentimentos:

Falar sobre os sentimentos pode ser um grande desafios para muitos adultos por aí. Encorajar a criança a dizer que não gostou ou que se sentiu ofendida com alguma brincadeira/piada/palavra pode ser o grande caminho para criar crianças menos agressivas e mais empáticas. Saber se expressar é tão difícil que acabamos “acatando” muitas situações com medo de nos colocar. Ensinar para a criança que o sentimento dela importa, é criar um adulto que sabe se defender e se valorizar.

Agressividade – quais são os motivos

Para entender o porquê da agressividade nas crianças, primeiro é preciso saber que, até o desenvolvimento da fala, a única forma de comunicação é a não verbal: expressões corporais e sons (gritos, choro…)

Portanto, quando a criança bate/morde/empurra não significa (necessariamente) que ela seja agressiva, mas que ela quer se comunicar de alguma forma. Do mesmo jeito que ensinamos as crianças a andar, comer, falar, também precisamos nos preocupar em ensinar como canalizar os sentimentos. Se estou triste, frustrado, angustiado, irritado, preciso procurar um outro jeito de demonstrar, que não seja machucando o outro.

O melhor a fazer, no momento da agressão é ajudar a criança a reconhecer o sentimento e legitimá-lo. “Percebi que você está com raiva porque seu amigo não quis brincar com você, mas que tal usarmos as nossas palavras para expressar isso ao invés de bater?” A criança que não sabe falar, vai ter muito mais dificuldade em conseguir se expressar, por isso a importância do trabalho, falar palavras pequenas: “Não gostei”, “É meu”, “Minha vez”…

O outro, que foi agredido, não necessariamente precisa ser outra criança, pode também ser um adulto, deve ser estimulado a responder que não gosta desse comportamento. NUNCA podemos “aceitar” que uma criança nos bate/morda/machuque pois ela é “pequena e não entende”. Se a criança não entende que é errado, ela vai continuar se comunicando assim.

Em casa, a importância de aprender a demonstrar seus sentimentos é fundamental para o desenvolvimento de uma criança saudável. Quanto mais modelamos e explicamos que  usamos as palavras para nos comunicar com o outro, menor é a chance da criança se tornar agressiva ou apenas usar o corpo para demonstrar o que está sentindo.

Vamos falar sobre consentimento

Escrevi um post sobre Abuso sexual (aqui) e como ajudar o seu filho a se defender ou perceber que algo não está certo. Hoje quero falar sobre consentimento, não importa necessariamente a idade da criança, mas é importante que ensinemos consentimento para os meninos e para as meninas desde bem pequenos.

Primeiro de tudo, nossa cultura brasileira nos ensina que somos “pouco donos do nosso próprio corpo e desejos”, principalmente as meninas. Crianças são ensinadas desde bem cedo que devem fazer o que as mandam com o seu próprio corpo. Estou aqui para propor uma mudança nessa abordagem, não importa a idade, é sempre bom manter essa conversa atual com os filhos/alunos.

Se o corpo é nosso, deveríamos ter o direito de fazer o que quisermos com ele, certo? (claro que não estou tratando de segurança, mas de socialização). Se uma criança abraça uma outra a força, não me parece legal e deve ser conversado. É preciso pedir para encostar no corpo do outro, e por mais simples que isso possa parecer, é dessa forma que podemos combater os abusos.

Se eu ensino para a minha filha que ela TEM QUE abraçar tal pessoa, não estou a deixando livre para tomar as suas próprias decisões com o seu corpo. Talvez aquilo a deixe desconfortável, mas ela faz mesmo assim, pois foi mandada. Parece uma besteira, mas acredite, é importante ensinar as crianças a estabelecerem barreiras no próprio corpo: se te incomoda/desconforta, não faça.

Incentivar demonstrações de afeto é maravilhoso, desde que os dois estejam de acordo. Mas como eu sei se existe desejo dos dois lados? Simples: pergunte! Fulana, você quer dar um abraço no fulano? Fulano, pergunte para sua amiga se ela quer receber um abraço! Fulana, percebi que está triste, posso te dar um abraço?

Além do mais, reconhecer os próprios desejos são habilidades brilhantes para desenvolver na Educação Infantil. Até quanto eu me sinto confortável? Quando preciso dizer que não estou mais gostando? Até onde é o meu limite. Vamos pensar sobre o jeito que estamos educando nossas crianças, é o nosso futuro!

 

Diferenças entre punição e consequência natural

Por que nós professores temos tanto pavor de punição? Além de ser uma palavra muito forte, não surge o efeito que deveria. As crianças não tem uma abstração mental tão desenvolvida para perceber que ela está de “castigo” por algo errado que fez.

Vou explicar:

Se eu tenho um aluno que está batendo/mordendo o que eu chamaria de punição: dar uma bronca e colocá-lo para pensar sentado afastado dos amigos. Você acha mesmo que colocar uma criança para pensar vai fazê-la refletir sobre seus erros e como poderia ser uma pessoa melhor? Isso é exigir um amadurecimento que a criança não tem. Não podemos exigir mais do que ela pode nos dar, é covardia. Desgasta o nosso relacionamento com a criança a toa, e nos faz criar uma certa “birra”, pois a todo momento estamos excluindo do grupo e expondo para os demais.

Castigo para pensar só estressa, envergonha e desestimula qualquer criança. 

Mas então qual a solução?

A diferença da consequência natural, seria uma intervenção menos traumática para a criança, mas que tem muito mais efeito, pois ela depende e se adequa a qualquer situação. Se uma criança morde, na hora da mordida eu corrijo o comportamento (dizendo: mordida machuca o amigo, nós fazemos carinho), mas não excluo da situação. Chamo a criança para ver o que ela fez e ajudar a cuidar do amigo que ela machucou (levando para lavar, passando um creme, colocando gelo).

Muitas vezes a criança só está fazendo para chamar a atenção do adulto. Não dê atenção (bronca, castigo) em situação negativa. Por outro lado, dê muita atenção positiva quando a criança fizer algo certo, corajoso, independente, amigável.

Em outros casos, se a criança estiver tendo um comportamento inadequado em uma atividade, eu simplesmente direciono ela para outra brincadeira. Se ela não está sabendo se comportar, eu pego na mão dela e ofereço outra possibilidade dizendo: “Estou percebendo que você não está conseguindo dividir esse brinquedo, deixe ele aqui e vamos procurar outro”.

O segredo é a firmeza e a constância, não gritar, não demonstrar para a criança que aquilo te irritou. Proibir a criança de comer, brincar ou participar não é solução.

Crianças independentes emocionalmente tem menos chance de desenvolver problemas psicológicos na adolescência e fase adulta

A gente, em educação, fala muito sobre autonomia, independência, colocar o sapato sozinho, comer sozinho, e etc… mas raramente se discute onde a independência emocional entra nessa conversa. Mas o que é a independência emocional? Como eu trabalho ela com meus filhos/alunos?

Na educação, uma das coisas mais difíceis é saber separar o nosso emocional do emocional da criança. É muito gratificante saber que tem um serzinho que depende de nós para se sentir melhor, se acalmar e se controlar. Mas isso está errado, o adulto não pode projetar a sua carência em cima da criança, é uma responsabilidade do adulto. A criança precisa aprender a se acalmar sozinha, faz parte do crescimento e amadurecimento.

Crescer é conhecer o próprio corpo e entender os diferentes alertas que ele nos manda, identificar e solucionar o tempo inteiro. O adulto ele serve de apoio, de ponto, mas nunca o “salvador da pátria”, o que chega, pega a criança no colo e diz que vai ficar tudo bem. Não transfira o problema da criança para você, dessa forma não estará ajudando, muito pelo contrário, estará mostrando para a criança que ela pode depositar seus problemas em alguém. Até chegar um momento que a vida nos mostra que precisamos fazer escolhas, reconhecer sentimentos, prevenir surtos ou saber lidar com eles. Se não aprendermos quando criança, fica muito mais difícil quando crescemos.

Mas então qual o papel do adulto? Saber identificar quando interferir e quando “deixar”. Estar sempre do lado é necessário, ser a fonte de segurança é importante, mas não confunda estar do lado com “solucionar” o problema para a criança. Ensinar maneiras de se acalmar sozinha é um bom começo, ajudar com as estratégias (beba um copo de água, respire fundo, chore, grite…) identificar os sentimentos junto com a criança (você percebeu que ficou nervoso? isso que você está sentindo é medo/raiva/fome) criar soluções junto com a criança (você acha que isso foi uma boa ideia? O que podemos fazer diferente?)

Tudo isso são ferramentas para trabalhar inteligência emocional. Educar não é estar em evidência, é deixar a criança agir, mas estar sempre do lado para que ela saiba a quem procurar.

 

Firmeza com Delicadeza

Depois de dançar ballet por diversos anos ao longo da minha vida, percebi que talvez essa tenha sido o meu maior aprendizado: ser forte mas soar delicada. Claro que as pessoas são diferentes, mas pra mim o grande desafio sempre foi a força. Ser firme, imponente, o lado mais agressivo da dança, o responsável por desenhar os músculos, foi tão difícil. Me atrevo até a dizer que foi aumentando conforme fui amadurecendo.

Na Educação Infantil a firmeza é tão importante quanto na dança, ela traduz segurança e ao mesmo tempo cuidado. Já notaram como as crianças precisam da firmeza dos adultos? O quanto elas depositam em nós? O mundo delas está em pé porque nós estamos lá segurando. A confiança de saber que tem sempre alguém ali olhando é completamente necessária para um desenvolvimento saudável. Enquanto as crianças estão ali dançando, nós estamos nos preparando para os próximos passos.

Mas segurança não é só dar a mão enquanto atravessamos a rua, é também dizer que está na hora de dormir e ponto final. É saber qual o momento de ser firme sem ser agressiva. É impor seus limites, construir juntos nossas regras, mas também saber ceder. É dar colo, mas repreender quando está errada.

É dançar conforme a música, é muito muito ensaio para 1 hora de espetáculo.

 

Como conversar sobre abuso sexual – até onde uma conversa pode ensinar o seu filho a se defender

Hoje em dia parece que fica cada vez mais explícito quantos casos de pedofilia/abuso infantil passaram muito perto de nós, mas ninguém sabia, ninguém falava. Uma vantagem de ouvir as histórias dos outros, pode nos alertar a como lidar, o que esperar e em quem confiar quando uma criança relata algo “estranho” acontecendo.

Para a criança saber que tem algo “estranho”, ela precisa saber o que não deve esperar de algum adulto, amigo, parente. A partir dos 2 anos de idade, já podemos começar a conversar sobre consentimento. Não com essa palavra, claro. Mas podemos começar a explicar que o corpo dela é SÓ dela e quem decide o que quer fazer, quem pode encostar é unicamente ela. Mas como:

  • Ensine o seu filho a pedir licença para encostar no corpo do outro: “Posso te dar um abraço? Posso te dar um beijo?” Se a criança não quiser, ela deve ser respeitada. Não devemos forçar as crianças a cumprimentar aquele parente distante com um beijo e um abraço se ela não quiser, assim, ela entenderá que ninguém pode a obrigar a fazer nada que ela não se sinta confortável com o seu corpo.

Devemos ouvir e confiar na criança em tudo o que ela nos fala. O adulto tem mania de não querer ouvir certas coisas desconfortáveis e colocam a culpa na imaginação da criança. Sejamos sensatos, sabemos o quanto deve-se saber sobre sexualidade com cada idade. Uma criança de 5 anos que fala sobre sexo oral não é apenas imaginação. Uma criança que detalha uma relação sexual não sonhou e acordou sabendo.

  • Dizer que a criança pode se sentir confortável para contar algo que a esteja incomodando, que não será julgada e não será punida é um bom começo. “Filha, você sabe que pode contar qualquer coisa pra mamãe, né? Mesmo que seja alguma coisa que você tenha medo ou que você ache errado. A mamãe sempre estará aqui pra te ajudar”.

Muitas vezes, em casos de assédio, a criança é ameaçada e tem muito medo de falar, por isso a cumplicidade e a confiança são muito importantes. Desconfiar o tempo todo do seu filho/dizer que o que ele está se queixando é besteira são um prato cheio para alimentar ainda mais o medo de falar.

  • Ensinar que ninguém tem o direito de encostar no seu corpo, MUITO MENOS nas suas partes íntimas e que se alguém um dia fizer isso, a culpa não é sua. Nem se a pessoa ameaçar contar para os seus pais. Nem se te oferecerem doces em troca. NUNCA, nem se for um adulto conhecido dos seus pais. Nem se for alguém que sua mãe gosta muito.

Assédio é um assunto muito sério e a grande maioria dos pedófilos se aproveitam da ingenuidade das crianças para fazerem o que quiser. Sabemos que os pais as vezes não conseguem ficar de olho em absolutamente tudo o tempo todo, então confie na educação que você deu para os seus filhos e não o repreenda quando ele vier te pedir ajuda.

Fica aqui um vídeo, em inglês, para trabalhar consentimento com crianças bem pequenas:

 

 

Como abordar sexualidade na infância – entrevista com psicóloga

Quando começa a sexualidade? Com qual idade a criança manifesta interesse sexual? Por que é importante trabalhar sexualidade na infância?

Como sempre recebo esse tipo de pergunta, resolvi entrevistar uma psicóloga que conta um pouco da sua experiência com crianças de 4 a 6 anos.

1.Qual a sua concepção de sexualidade?

A minha concepção de sexualidade é aquela que se adequa ao desejo do sujeito, ou seja, aquela com a qual o indivíduo se identifica. Sexualidade é construído individualmente e socialmente através dos laços culturais.

2. Quando acredita que a sexualidade começa a se desenvolver no ser humano? Por quê?

A sexualidade começa se desenvolver desde a hora que ele nasce. Porque é o primeiro contato com seu mundo real.

3. O que considera como manifestações sexuais na infância?

Tudo aquilo que dá prazer a criança: por o dedo na boca, amamentação, toques, etc…

4. Acredita haver manifestações sexuais na criança com idade de 0 a 3 anos? Se sim, o que considera sexual nesta faixa etária? Se não, por quê?

Sim, amamentação no seio, por o dedo na boca, toque nos genitais. São sexuais porque são ações que evocam prazer.

5. Acredita haver manifestações sexuais na criança com idade de 4 a 6 anos? Se sim, o que considera sexual nesta faixa etária? Se não, por quê?

Sim. Essas manifestações ocorrem a partir do toque. Algumas crianças se tocam, estão conhecendo seu corpo e conhecendo o que as dá prazer também.

6. Já presenciou alguma situação de manifestação sexual na infância? Descreva a situação.

Sim, várias. Crianças se esfregando em brinquedos no momento do parque. Esfregando suas genitais contra brinquedos (trepa-trepa, mesas de cantos arredondados).

7. O que pensaria e como agiria diante das perguntas das crianças sobre “como nascem os bebês”?

Depende do que a criança quer saber. As vezes a malícia está na cabeça do adulto. A criança pode só estar perguntando como ela nasceu, aí a resposta deverá ser adaptada: da barriga da mamãe, fomos no hospital e o médico tiro você de dentro da mamãe. Agora, se a criança estiver querendo saber sobre o ato sexual, também deve ser um assunto tratado com naturalidade, mas sempre com a linguagem adaptada.

8. O que pensaria e como agiria se encontrasse crianças tentando ver os órgãos sexuais umas das outras?

Tentaria entender por quê querem fazer isso, perguntando-as: “Fulana, o que você está querendo ver aí? Está curiosa?”. A partir de sua resposta, uma das possibilidade de manejo seria explicar que todos nós temos as nossas partes íntimas, e normalmente elas são mostradas em momentos íntimos. Existe uma diferença anatômica entre o pênis e a vagina e as crianças vão notar isso.

9. O que pensaria e como agiria diante de uma criança que se masturbasse em aula?

Depende. Se é uma situação que eu preciso da atenção dela (roda, tarefa), eu chamo sua atenção, não como uma forma de repreensão, mas como um chamado que seria igual se ela estivesse fazendo qualquer outra coisa. Se ela está fazendo isso no parque eu acho que eu direcionaria sua atenção para outra atividade. Porém, conversaria com ela sobre uma questão de privacidade, se esse assunto surgisse. Diria que talvez fosse melhor mexer nessas áreas num ambiente mais recluso, e perguntar qual é sua opinião, certificando de que ela entendeu meu pedido.

10. O que considera ser o papel da escola e o papel dos pais no ensino dos conteúdos relacionados à sexualidade das crianças?

Acho que não existe essa divisão. Acredito que a escola e os pais devem trabalhar conjuntamente para que a sexualidade infantil seja vista como uma curiosidade. Porém, no caso de ignorância dos pais, é papel da escola, como portadora desse conhecimento, apresentá-lo aos responsáveis pela criança.

11. Em que situações os pais devem ser convocados pela escola para uma parceria de trabalho no que se refere à sexualidade infantil?

Acho que os pais sempre devem estar cientes da presença da sexualidade na criança. É importante que haja uma conscientização disso. Porém, eles devem ser chamados em situações que fogem do “comum” como uma situação que fere a integridade do grupo, ou que provoque sofrimento a alguma das partes.

12.A sexualidade é um tema que deve ser trabalhado pela escola? Por que e de que maneira?

Sim, sempre. A escola deve sempre conversar sobre temas a medida que eles apareçam em sala de aula. A sexualidade deve ser conversada sempre de maneira natural, para não ser repreendida e se transformar em tabu. Conforme as crianças forem crescendo a linguagem deverá ser adaptada, para que na escola, pelo menos, seja um ambiente seguro para conversar sobre isso.

 

Quando o Monty se assumiu menina

Ele ia fazer 9 anos. Monty passou, da criança mais feliz, que acordava antes do nascer do sol para me falar o quão lindo seria o dia, para uma criança completamente deprimida. Ele estava bravo, nervoso, muitas vezes até violento com os seus irmãos mais novos. Ele parou de querer brincar lá fora e dizia, constantemente não ver sentido na vida.

18033271_10154503802243499_812504540196403449_n

Eu fiquei preocupada, muito preocupada. Eu me senti uma mãe horrível para o meu filho. Eu sabia que alguma coisa estava errada mas eu não sabia o que era nem o que fazer. Ficou tão difícil que meu marido, Chris e eu decidimos procurar ajuda profissional antes que tudo ficasse ainda pior.

 

Um dia eu eu Chris saímos e decidimos trazer para casa alguns tacos de hockey de surpresa para as crianças. A gente pegou um para o Monty, um para Hayden e outro para a Charlotte. Hayden ficou muito feliz! Ele mal podia esperar para ir lá no quintal, até pareceu que o Monty ficou animado para brincar com ele, tipo 30 segundos de um milagre.

Fomos ingênuos. De repente Hayden apareceu chorando e Monty subindo as escadas, em direção ao seu quarto, batendo os pés gritando que não iria mais brincar lá fora. Acalmamos Hayden e as outras crianças foram brincar nos deixando sozinhos para conversar com o Monty.

253642_10150194577988499_2093931_n

A conversa parecia estar caminhando como sempre com Monty, ele gritando, nervoso dizendo que odiava brincar lá fora e que jamais faria isso de novo. Mas, de repente, algo mudou: Monty gritou que ele odiava hockey e que não iria mais jogar. Eu então perguntei o que ele odiava no hockey, e as palavras que ele usou aquele dia ecoam no meu ouvido até hoje. Ela começou a chorar e gritou: “Hockey é de menino e eu sou uma menina!”

Apesar de discordar completamente que hockey é uma brincadeira de menino, aquele não era o momento para aquela conversa. Então nós só ficamos ao lado dela enquanto ela chorava.

No fundo eu não estava surpresa, eu sempre soube. Quando era menor, Monty adorava brincar e se vestir com as roupas de princesa da Kailey e da Hannah e, ao invés de dizer: “quando eu crescer”, ele dizia: “quando eu for menina”

Eu fiz a única coisa que eu pude naquele momento. A única coisa que eu sempre farei, independente da situação: eu abracei Monty bem forte e disse a ela: “Eu te amo e você pode ser quem quiser”.

Nossa relação em casa é bem mais agradável, Monty hoje tem 12 anos, ela está sob os cuidados de um médico maravilhoso que comanda o programa de Transgêneros do Sick Kids (referência de hospital infantil em Toronto). Ela está 100% acomodada como menina na escola e recentemente começou o o tratamento com hormônios. Mas mais importante de tudo: Monty está feliz e segura de quem ela é.

17632206_10154440414198499_6710109239195045764_o (2)

Texto da minha amiga maravilhosa que aceitou me contar a história de sua filha Monty. Link para o texto originalhttps://greightfullife.net/2017/05/23/that-time-monty-came-out/

 

Algumas atividades que ajudam na alfabetização sem usar lápis e papel

Uma das fases mais importantes, e ao mesmo tempo mais difíceis e cheia de expectativas é o começo da alfabetização. Primeiro de tudo, precisamos lembrar que a alfabetização é de certa forma, uma imposição de uma forma de comunicação, porém de extrema importância e necessidade. Afinal, não podemos nos comunicar cada um de um jeito, não é mesmo? Foi preciso ser estipulada uma norma e esta, ser seguida por todos. Porém, não deixa de causar estranhamento em um primeiro momento, não podemos querer que todas as crianças reajam da mesma forma quando as ensinamos como escrever.

Ficar trabalhando a pega correta do lápis e circular as letras pontilhadas parece ser a maneira mais eficaz de trabalhar o letramento, correto? Concordo em termos: além de serem atividades extremamente chatas com técnicas antigas, a criança precisa estar em um nível de coordenação motora fina bem avançado para ser bem sucedido nessas atividades.

Daí o motivo de algumas crianças “conseguirem” antes de outras, é tudo uma questão de prática, quem pratica a mais tempo, tem mais vantagens, não é mesmo? Mas como elas estão praticando? Pois é… esse é o grande trunfo da alfabetização. Não trabalhe em cima do contorno das letras em sala de aula, trabalhe a coordenação motora fina em brincadeiras, jogos, atividades lúdicas, e comece bem cedo, assim, quando chegar o momento de escrever, não será tão difícil, pois o físico já estará bem trabalhado.

Aqui algumas atividades de coordenação motora fina para serem exaustivamente trabalhadas antes da alfabetização:

 

  • Movimentos da pinça:

  • Recortes:

a258f56828a85a4f2e6c98bd67ccf212

  • Costura:

f1e187e2b9da266c230ae373486b6e61

  • Elástico:

f41bc81e8a794f8c98cab3b7bd7fedca.jpg

  • Encaixe nos canudinhos

13cfb1cea25412408bf041aada5fca0b

  • Transporte de materiais com ferramentas:

4f1ab51eb111348ef15749dda9ea9094

  • Massinha:

f4403142cd0727eec62116771537f557-e1521054498540.jpg

 

Quantas vezes dizemos para as crianças se acalmarem, mas nós ainda não aprendemos a fazer isso?

Trabalhar com Educação é muito engraçado, principalmente quando pensamos que o tempo inteiro estamos tentando ensinar coisas que nós ainda não aprendemos.

Solucionar problemas: sempre incentivamos as crianças a terem autonomia e resolver seus problemas sem ajuda. Mas nós conseguimos fazer isso? Quantas vezes nós não pedimos ajuda?

Acalmar o nosso corpo: o quão difícil é dizer para a nossa mente que ela controla o nosso corpo? O quão fácil é falar isso para o outro? Quantas vezes eu me pego sem conseguir controlar os meus pensamentos, surtando, mas vivo dizendo para as crianças da necessidade de se acalmar sozinha.

Conviver com o outro: quantas professoras chamam os amigos da sala de amigos? Mas somos todos amigos? Somos obrigados a sermos amigos de todos? Na vida real isso não acontece e tá tudo bem…

Aprender a ouvir: quão difícil é saber esperar aquilo que a gente precisa falar, por vezes vários minutos? Não interromper o outro, ouvir e realmente prestar atenção no que o outro está falando.

Entender o sentimento do outro: quantas vezes não julgamos o comportamento do outro, sem pensar no que ele pode estar passando, ou nos colocar no seu lugar? Quantas vezes passamos por cima do sentimento do outro sem nem perguntar como ele está se sentindo, se está tudo bem.

Pedir desculpas: quem aqui acha fácil admitir o seu erro e pedir desculpas para o outro? Quantas vezes o nosso orgulho não falou mais alto?

Vamos elogiar nossas crianças!

A cada capacidade de demonstrar respeito, atenção, resiliência, habilidades sociais são passos gigantes na caminhada em direção à maturidade. Elogie pelo simples fato de tentar! Não sejamos hipócritas, nós sabemos o quão difícil são todas essas habilidades que estamos exigindo.

Vamos falar sobre gênero?

Sabe aquela convenção antiga de que menino usa azul e menina rosa? Ou pior: menina usa várias cores, mas menino não pode, vai ferir a masculinidade dele. Gente, vem cá, precisamos falar sobre isso.

Quem aqui se sentiria incomodada se o filho pedisse pra comprar uma boneca?

Vou ser bem sincera: cores, brincadeiras, bonecas, livros, não tem gênero. Não existe brincadeira de menino ou menina, existem brincadeiras que desenvolvem habilidades, amadurecem, trabalham coletividade, respeito…

Você que tem filho e priva ele de brincar de boneca, casinha, cozinha, não é de ser uma dona de casa que você o está protegendo. É de conviver em grupo, de aprender a dividir tarefas, de brincar de de faz de conta, relacionar a brincadeira com o papel social, fantasiar, desenvolver criatividade.

Já ouviu falar que menina amadurece mais rápido? São mais bem resolvidas? É justamente por isso. A menina, em geral, tem maior flexibilidade na hora de brincar, tem mais possibilidades. Ninguém restringe suas escolhas. E aí eu te pergunto: por quê você faz isso com o seu filho? É equivalente a trancar o seu filho num quarto e o impedir de brincar, não tem vantagem. Cria-se uma barreira tão grande entre os gêneros que os meninos crescem e ficam uma vida inteira precisando provar sua masculinidade, pois tem certas coisas que eles não “podem” fazer.

Pense bem na próxima vez que for restringir brincadeiras, isso não é saudável, nem para a criança e nem para a sociedade. Criamos meninos com inteligência emocional inferior às meninas, daí a necessidade de desmerecimento e auto afirmação o tempo inteiro.

Ah, só pra lembrar: Sexualidade se define por desejo, atração, jamais por brincadeiras.

Sobre o meu curso de ECE (Educação Infantil) no Canadá

Resolvi escrever mais sobre o meu curso de Educação Infantil (ECE) no Canadá porque tenho recebido várias perguntas. Então se você tem vontade de fazer pedagogia no Canadá, ou tem curiosidade em saber como as coisas funcionam, esse post é pra você.

Pois então, eu mandei a minha application do Brasil para um college aqui que se chama George Brown. Fiz tudo pela internet, organizei os documentos e enviei (nada de mais, cópia de passaporte, diploma do ensino médio, histórico escolar, pontuação (mínima) 85 no TOEFL…) O curso que eu apliquei chama EARLY CHILDHOOD EDUCATION. Em cerca de 2 meses me responderam com uma carta de aceite, com a oferta da faculdade me convidando para fazer o curso.

Meu curso tem a duração de 2 anos (quatro semestres) – podendo ou não serem cursados durante as férias de verão (junho, julho e agosto). Eu resolvi fazer tudo direto, emendei as férias e vou terminar em 15 meses.

São 4 semestres e 4 estágios obrigatórios, supervisionados (que duram metade de 1 semestre – 2 meses e meio. O resto são as aulas presenciais, full time). São estágios não remunerados, trabalhando de segunda a sexta, 8 horas por dia, seguindo o horário de alguma ECE (professora de Ed. Infantil). As escolas variam, e a faixa etária também. Podendo ser pública ou particular, de 0 a 12 anos (tem o programa das crianças que ficam no Day Care depois da escola).

As avaliações são diárias e englobam: profissionalismo, pedagogia, higiene/saúde e reflexão sobre a prática. Resumindo, eles te avaliam desde a sua disponibilidade física e emocional até se você chega no horário e atende as normas de ética. Tem uma lista de checks que você precisa concluir para passar para o próximo estágio, e estes vão ficando cada vez mais elaborados, conforme você vai passando de semestre.

Comandar a rotina, planejar excursões, conversar com os pais, redirecionar crianças são algumas das coisas que são esperadas durante a evolução de todos os placements (estágios), sendo que a partir do momento que você se forma, deve ser master em todas os ítens.

Mas aí você me pergunta, e funciona?

Vou ser sincera, nunca me senti mais preparada para comandar uma sala de aula do que hoje. Isso porque eu já era professora antes de vir pro Canadá. É como se você fizesse tanto, que algumas coisas viram automáticas. É tanta observação, negociação, prova oral, avaliação, newsletter, posicionamento que vou te contar…acaba virando parte da sua rotina mesmo. Entrar, contar quantas crianças, não virar de costas, observar atentamente, analisar quais habilidades foram aprendidas, quais precisam melhorar, anotar, contar quantas crianças…

A última parte foi uma brincadeira.

Eu já tinha uma formação teórica antes e vir pro Canadá, e também já tinha cursado 2 anos de pedagogia no Brasil (e meu curso foi extremamente teórico) então pra mim foi muito benéfico uma visão bem prática do negócio. Avalie isso também, a pedagogia é traiçoeira, e por mais que você ache que já sabe “cuidar de criança”, não se esqueça que a teoria é a sua raíz e vem em primeiro lugar. Não existe profissional que não esteja sempre estudando, pesquisando e se reinventando.