Como é a inclusão no Canadá

Tenho recebido muitas perguntas sobre inclusão no Canadá e resolvi compartilhar um pouco da minha experiência daqui. Como já contei em outro post, trabalho de voluntária em uma escola específica que só possui crianças com necessidades especiais. Essa escola recebe crianças de 1 até 5 anos e as “prepara” para entrar em uma pré-escola com todas as crianças misturadas. As crianças vão recebendo um tipo de “alta” quando estão prontas para ingressar na pré-escola.

Quando me refiro a crianças com necessidades especiais aqui no Canadá, quero dizer casos bem severos, como por exemplo: paralisia cerebral, autismo severo, TOC severo (sensory processing disorder), alguns casos de síndrome de down, casos de crianças que nasceram com a musculatura nada desenvolvida (low muscle tone disorder) e o contrário também (high muscle tone disorder), entre outros…

Todas as crianças tem um fichário no seu próprio cubby que explica exatamente a condição da criança e as estratégias para o seu desenvolvimento. Essas crianças são acompanhadas semanalmente por uma psicóloga especializada, uma médica e uma terapeuta ocupacional. São esses profissionais que escrevem no fichário de cada criança quais as estratégias que deverão ser utilizadas e como. E também são eles que decidem quando a criança já está pronta pra entrar numa pré-escola regular.

Como professora voluntária, a minha função é exercer as estratégias determinadas para cada criança, conhecer e identificar a condição de cada criança, saber o que esperar de cada um e claro, compartilhar o desenvolvimento diário de cada criança para os médicos e psicólogos.

As estratégias variam para cada criança, mas a maioria é o estímulo da fala/comunicação, então: a repetição de palavras, utilização de frases simples e também a linguagem de sinais (sim, as crianças que não falam se comunicam por sinais). E também o desenvolvimento da coordenação motora, então: o estímulo da coordenação fina com brinquedos especializados.

Além disso, a rotina das crianças é igual a um centro regular: hora da roda, do lanche, da história, da música, da atividade sensorial, com só uma diferença: a hora do parque é a hora da academia (com aparelhos adequados para cada deficiência) e a hora da brincadeira livre é o horário do silêncio (quando cada voluntária desenvolve as principais estratégias com cada criança)

Outra característica é que é uma escola pública e conta com ajuda governamental e da comunidade para seu crescimento. Quem quiser conhecer a escola, este é o site: http://www.cicc.ca/

Eu tenho um aluno autista

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Sem a menor dúvida essa é a pergunta que 9 de 10 pessoas me fazem de cara. Apesar de já ter certo espaço aberto para essa discussão, eu acredito ser o maior tabu da modernidade, se tratando de educação. Muito pelo fato de não saberem se é uma síndrome genética ou adquirida, criou-se um caos. Nas escolas, como eu já contei em outro post, é um tal de encaminhamento psicológico inacreditável. De repente, tudo é diagnosticável, tratável, curável. Os pais vivem uma “neura” constante, uma culpa louca de “se eu fizer isso, vai acontecer aquilo…” e acabam esquecendo o mais importante: a criança.

Gente, calma! E eu escrevo isso lendo em voz alta pra ver se eu acalmo a ansiedade que insiste em querer me dominar. Parece tão fácil falar, acredite, eu sei que não é. Não tenho filhos (ainda) mas entendo a vontade de querer o melhor para a criança, querer que ela seja perfeita, mas sejamos sinceros, ninguém é perfeito. Então vou mudar, devemos querer que nossos filhos/alunos sejam bem esclarecidos (?). E como é isso?  Uma criança bem esclarecida vai precisar passar por diversas frustrações até entender que ela não é o centro do universo, que todos não vieram no mundo para servi-la, que ela não ganha sempre, e etc…

A diferença da criança autista, na minha opinião, é a sensibilidade. A criança, para fazer parte da nossa sociedade, PRECISA passar por uma série de “surtos construtivos”. Surtos que vão fazê-la entender que não é batendo no amigo que eu ganho o meu brinquedo de volta. Quem já presenciou uma criança de 3 anos irritada vai entender bem do que eu estou falando. É difícil dividir, é difícil fazer parte de um grupo. A diferença é que para uma criança mais sensível é mais difícil ainda, portanto os surtos são bem maiores, de intensidade e de duração.

O que estou querendo dizer é que para uma criança autista, o nível de esforço colocado numa situação como: emprestar um brinquedo ou participar em grupo vai ser sempre maior. E maior ainda quando ela é pequena, pois nem ela entende o que é esse incômodo tão grande que ela sente dentro dela. Conforme os anos vão passando, a criança vai se identificando, se entendendo melhor e ai as coisas começam a fazer mais sentido. Por isso que eu disse calma! A ansiedade é nosso inimigo, rs. O autista precisa de tempo pra se reconhecer, só ele vai saber dizer o que é melhor pra ele, não tente você querer adivinhar.

Eu tenho um aluno autista e sabe o que eu faço de melhor por ele? Eu estou sempre ali pra quando ele precisar de um abraço depois de um surto, mas além disso, teimo em dizer que ele tem capacidade de fazer absolutamente tudo sozinho, e sabe que as vezes até ele duvida dele mesmo? E toda vez que alguém também duvida da capacidade dele, e resolve colocar o casaco nele ao invés de deixá-lo colocar sozinho, jogamos sua auto-estima lá embaixo, e lembra daquela conversa de se conhecer para se reconhecer no mundo? Cada vez mais distante. Por isso eu repito: quer doar algo de bom para a criança? Doe o seu tempo, doe a sua paciência, não faça por eles o que eles podem fazer sozinhos. Nossa tendência é resolver o detalhe. Hoje, te sugiro pensar no macro, o que realmente de bom eu posso ensinar a essa criança?

Parem de diagnosticar tudo!

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É verdade que existe uma diferença gritante em educação e saúde no Brasil e no Canadá, mas uma coisa que me deixa bem intrigada aqui são o quanto as crianças são diagnosticadas rapidamente e o quanto tudo é tão rotulado. Esse é autista, aquele tem dificuldade nos processos sensoriais, o outro ainda não fala com 3 anos… Gente, o que é isso? Vamos deixar cada um no seu tempo. Sou completamente contra diagnósticos fechados e precoces, acredito que o ambiente influencia COMPLETAMENTE no desenvolvimento da criança, e muitas vezes alguns atrasos só estão relacionados a isso.

Óbvio que existem crianças que precisam ser diagnosticadas bem cedo e que o quanto antes o acompanhamento terapêutico melhor, mas não é disso que eu estou falando. Sabe quando você leva seu filho no dentista e a doutora fala: “Olha, acho que seu filho tem DDA, nunca vi uma criança tão sem foco” ou então (essa é a minha favorita): “Hmm, tem alguma coisa estranha com essa criança, to achando que é autista”. Gente, PAREM!!!! Faço aqui o meu apelo, só parem pelo amor de Deus!!!

Hoje em dia as estatísticas de crianças diagnosticadas com doenças crescem numa proporção estratosférica. E sabe como isso ajuda? Não ajuda! Viemos pra esse mundo para evoluir, meu povo, não pra regredir. As crianças tem centenas de motivos para se desenvolverem antes ou depois que outras, e não é necessariamente motivo para ser colocada em um potinho: “lerda”. Falta de interação com crianças da mesma idade, pouco estímulo, qualquer tipo de separações ou mudanças, tudo isso pode acarretar em falsos diagnósticos. Tá vendo? Coisas que podem acontecer com todo mundo, não é mesmo? Ou vai me dizer que quando você tá com um problemão em casa o seu rendimento no trabalho é o mesmo? Imagina para uma criança.

O pedido é esse. Vamos refletir no quanto estamos esperando das nossas crianças e, melhor ainda, vamos mudar a perspectiva. Que tal pensar no quanto elas já podem oferecer? Ao invés de olhar para um menino de 3 anos e apontar que ele ainda não verbaliza, que tal pensar em qual a forma dele de se comunicar? O jeito de ver o mundo é nosso, vamos enxergar direitinho.

Children with Disabilities

 

Logo que me mudei para o Canadá me interessei em voluntariar em escola, no começo pois era a única coisa que conseguia fazer, e depois porque sabia que ia colher os frutos em algum momento. Por ironia do destino tem uma escola de crianças com necessidades especiais na esquina da minha casa, assim 400m de distância. Como quem não quer nada, bati na porta e fui logo perguntando se estavam precisando de voluntária.

Nunca tinha trabalhado com crianças especiais, tive uma vez um aluno com suspeita de estar no espectro, mas meu conhecimento prático era extremamente limitado. Claro que muito apreensiva, com muitas dúvidas e uma sensação de meu Deus onde eu estou me metendo?! Entrei na escola e já fui super bem recebida pela orientadora, me chamou para uma conversa. Quando ela descobriu que eu era brasileira, se surpreendeu e disse: “Nossa, que demais! Adoramos diversidade, quando você pode começar?” Magina que coisa louca, não tinha pensado dessa forma, mas eu também era uma pessoa diferente, eu era uma imigrante, sozinha, com medo, e o que eu estava buscando era exatamente o mesmo que aquelas crianças, pertencimento, atenção e acolhimento.

A partir desse momento, corri com os meus documentos (que eram muitos – todas as vacinas em dia, exames de sangue, raio x, atestado de antecedentes criminais) pra começar logo naquele lugar. Tive uma pequena orientação sobre as doenças mais sérias das crianças que estudavam naquela escola, e também como carregar as crianças no colo corretamente ou o que esperar de determinadas doenças.

Cada voluntária era responsável por uma criança, eles precisavam de muita gente. É uma escola infantil regular e só aceita crianças especiais. A escola “preparava” as crianças para inserção no mundo novo e amedrontador do primeiro ano do kindergarten. Literalmente inserida na educação de crianças especiais, eles funcionam exatamente igual qualquer outra escola que eu trabalhei, com a diferença que as atividades eram focadas em cada necessidade de cada crianças. Isso mesmo, cada criança tem uma ficha de desenvolvimento e a cada meta que ela completa (andar sem tropeçar, expressar seus desejos através da fala ou de linguagem de sinais, entre outros) ela vai passando de ano, estando assim, apta a cursar uma escola com outras crianças, com ou sem as mesmas necessidades dela.

Parece tão simples, e é mesmo. Sabe o mais legal? Essa é uma escola de bairro, pública e os voluntários que trabalham lá fazem parte da comunidade. Ou seja, igual a essa escola tem mais centenas de outras. E sabe o que eles ganham? Todo o amor que essas crianças podem dar, e tem recompensa melhor?