Eu tenho um aluno transgênero!

Comecei um novo placement (meu último estágio aqui no Canadá) na semana passada, com a idade que eu fui empurrando pro final – idade escolar. Meu maior desafio até hoje. Trocar fralda, limpar vômito, tudo molezinha perto de lidar com as crianças grandes, os pré-adolescentes cheios de voz, loucos para dar uma resposta atravessada.

Cheguei quietinha no meu canto, só observando. Comecei conversando com o grupo de meninas (me pareceram mais abertas), trocamos ideia que nem gente grande. Me contaram sobre as séries de TV que elas gostavam de assistir, das músicas, das redes sociais. Cada vez que os nossos interesses batiam eu me ligava do quanto eles eram independentes e crescidos, e me perguntava como eu poderia ser útil, o que mesmo eu estava fazendo ali?

Ontem, no fim do dia, chamei um grupo: “Meninas!”

Recebi uma olhada torta e alguém me disse: “A fulana é transgênero” – Todos olharam firme para a minha cara, ficaram esperando alguma reação. Acho que pensei por algum momento que alguém poderia estar brincando, me testando né? Respirei e lembrei do país que eu moro, da naturalidade que eles abordam questões LGBT e respondi: “Ah, desculpa. Como você gostaria que eu te chamasse?”

Fui conversar com a professora. Não por desconfiar de ninguém, mas para entender como que a escola, os pais e os alunos lidavam com a situação. E aí chega o Canadá e me impressiona mais uma vez, acho que eu perdi as contas de quantos tapas na cara (não literais) já levei desde que cheguei. A professora me falou que não existia questão, os pais estavam deixando a criança se descobrir e perceberam uma identificação com o gênero feminino, portanto o cabelo comprido, as roupas, sapatos. As crianças respeitavam a criança do jeito que ela quisesse se vestir, se comportar. E a escola liberou o uso dos banheiros que a Eve se sentir mais confortável para usar, feminino ou masculino.

Sem constrangimento, sem stress, sem textão nas redes sociais, somente mais um dia normal aqui em Toronto. Beijos de luz (convido a todos que façam um intercâmbio nesse país que é só amor)

 

Minha experiência como professora no Canadá – o quanto mudei como pessoa

Antes de me mudar para o Canadá, trabalhava em uma escola bilíngue canadense. Uma escola que me acolheu desde assistente, e me promoveu para professora de toddlers (crianças de 2 a 3 anos). Me lembro que eu tinha meu próprio jeito de ser professora, minha própria rotina, que foi criada depois de muito aprender com as minhas colegas da própria escola. De tanto observar e conviver, você acaba até ligando no automático.

Quando eu cheguei no Canadá senti que toda a experiência que eu tinha no Brasil não tinha servido de nada, eu sentia que eu não sabia nada. Foi uma loucura! Voltar do início, estudar tudo desde o começo, voltar a ser assistente, observar novas colegas.

Passei por 4 escolas completamente diferentes uma das outras, convivi com professoras muito sérias até umas mais engraçadas e sossegadas. Trabalhei com crianças com necessidades especiais de diferentes idades e necessidades. Trabalhei em escolas públicas e particulares, convivi com famílias de diferentes partes do mundo, aprendi algumas palavras e músicas em diferentes línguas.

Ufa!

Hoje depois de tudo isso percebo que eu não quero ter uma maneira de ensinar, um jeito meu, uma rotina diária que se repete a cada ano. No Canadá eu aprendi que não importa a professora que você é, mas os alunos que você tem. O jeito de ensinar, o planejamento, a rotina, não depende de você, mas das criaturas que estão ali na sua frente. Cada criança e sala é uma, com necessidades diferentes, com demandas mais ainda. Não quero repetir a minha prática cada ano, quero poder me reinventar e mudar a cada criança que passar por mim, ser uma professora diferente para cada criança.

Afinal, se tem uma coisa que eu aprendi trabalhando com crianças especiais foi: não importa quão “normais” sejam os seus alunos, eles serão sempre diferentes uns dos outros. Então como eu poderia ser a mesma?

50 frases que devemos falar mais para as crianças

Mostrar que você confia na criança:

  • Eu confio em você!
  • Eu respeito a sua decisão
  • Você está fazendo certo
  • Como você conseguiu fazer isso tão bem?
  • Você faz isso melhor do que eu
  • Eu acredito em você!
  • Não será fácil, mas eu tenho certeza que você consegue
  • Você entendeu isso perfeitamente

Legitime o seu trabalho:

  • Eu vi o quão difícil foi fazer isso
  • Eu percebi que você trabalhou duro
  • Você está progredindo muito!
  • Todo o seu trabalho está sendo recompensado

Agradeça pelo tempo que vocês passam juntos:

  • Eu adoro quando a gente passa um tempo juntos
  • Mal posso esperar para brincar com você amanhã
  • Adoro brincar disso com você
  • Eu estou tão feliz que você está aqui comigo
  • Estou me divertindo muito com você

Ajude a avaliar suas performances:

  • O que você achou disso?
  • Você deve estar orgulhoso!
  • Qual a sua opinião?
  • Como você diria que se saiu?
  • O que você achou do resultado?
  • Você queria que tivesse sido diferente?

Agradeça a ajuda:

  • Muito obrigada por fazer isso
  • Estou muito feliz que você me ajudou com aquilo
  • Obrigada por entender
  • Não sei o que eu teria feito sem você
  • Tudo está tão limpinho graças a você
  • Ainda bem que você me ajudou

Descreva o que vê:

  • Eu percebi que você arrumou o seu quarto sozinha, parabéns!
  • Sua mesa está muito limpa
  • Tem muitas cores bonitas no seu desenho

Descreva o que você sente:

  • Eu gosto muito de passar um tempo com você
  • Eu fico muito feliz quando você está em casa
  • Eu adoro ser da sua equipe
  • Eu gosto de saber a sua opinião
  • Eu sou muito grata de ter você na minha vida

O que eu aprendi trabalhando com bebês

Meu terceiro placement aqui no Canadá foi com bebes a partir de 3 semanas (sim, você não leu errado) até 1 ano e meio. São os chamados infants. É uma sala de aula cheia de berços, um para cada criança. Mamadeiras com leite materno, fórmulas de suplemento, restrições alimentares (aos que já comem os sólidos) entre mil e outros detalhes particulares de cada família ou bebê.

Acima de tudo isso, acho que o mais difícil mesmo era adaptar uma atividade que pudesse ser desenvolvida por todas as crianças da sala. Pensem comigo: algumas crianças já andavam, outras sentavam com dificuldade, alguns outros engatinhavam. Isso se tentasse separar por idade eim…crianças de exatamente o mesmo tempo de vida podem ser completamente diferentes.

Numa sala de infants não tem maioria, a maioria é diferente. O que existe é o particular, mas sabe por que é tão óbvio? Com os infants é físico, tá na cara! Você enxerga duas crianças de 11 meses, uma cheia de dentes andando e uma outra de 11 meses que ainda não tem tantos dentes e se sente mais segura sentadinha no tapete.

Trabalhar com infants é entender que desenvolvimento é mesmo uma coisa particular, que começa fisicamente e se perde quando as diferenças físicas se alinham, mas ele continua lá.

Aprendi com os infants que por mais que as diferenças não estejam ali na nossa cara, elas vão sempre existir. Ser professora de infants me fez crescer como professora de toddlers, de preschoolers, de kindergartens…me fez enxergar o particular e o todo.

Ser professora é conseguir enxergar que em qualquer sala de aula existem seres humanos diferentes, com diferentes dificuldades, diferentes conquistas, diferentes perdas e diferentes aprendizados.

Ser professora de infants me ensinou a enxergar o que nem sempre a gente consegue ver.

Cada vez mais novas, meninas são diagnosticadas com transtorno alimentar – o terror da cultura moderna

Para quem acha que eu estou exagerando, vou te contar uma história que aconteceu na escola que eu trabalho semana passada: na sala de preschoolers (3 anos de idade) uma mãe foi se queixar de que sua filha havia reclamado de que o banheiro da escola estava quebrado. Como a situação ocorria diariamente, e a mãe já estava preocupada, pois a menina se trancava no banheiro quando chegava em casa e lá ficava, as vezes até 1 hora, afirmando que na escola não tinha mais banheiro para usar. Nitidamente preocupadas, as professoras disseram que não havia banheiro nenhum quebrado e que ninguém tinha notado nenhum comportamento diferente na aluna. Pois bem, no dia seguinte a mãe entrou no banheiro e percebeu que sua filha ficava em frente a privada forçando o vômito todos os dias depois de chegar da escola.

 

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Esse relato te choca? A mim me chocou a ponto de eu não conseguir parar de chorar quando voltei pra casa. Eu não sei direito o que pensar quando vejo que meninas de 3 anos já estão sofrendo com o próprio corpo.

Fico me perguntando quando vamos olhar o nosso corpo como saúde, como algo que nos carrega, que nos aguenta, que nos da vida! Comer é vida, é energia para as nossas células. Quem não come morre. Que cultura é essa que vivemos? Ser magro é mais importante do que ser saudável?

Me respondam seriamente, o que vocês querem ensinar aos seus filhos? A serem magros ou serem amáveis, interessados, curiosos, espertos? Me parece que cada dia o mais importante é o que temos por fora. Isso está errado! Nosso corpo é importante porque carrega o nosso ser, a nossa alma.

Se a resposta for a segunda opção, e eu espero do fundo do coração que seja, vamos parar de vangloriar os corpos, criticar e nos massacrar para sermos magros. Nos exercitar ou comer em função de ter o corpo ideal. Vamos mudar de assunto, vamos incentivar as crianças a comer bem porque é saúde, vamos fazer exercício porque faz bem pra nossa saúde mental. Não vamos usar a comida como chantagem, castigo ou prêmio. Vamos elogiar a mente, pelo amor de Deus, parem de elogiar os corpos!

Meu filho/aluno parece que faz errado só pra me provocar

Como vocês devem imaginar, estou em incontáveis grupos de maternidade/educação/professores e etc… e por mais louco que isso possa soar, o que mais vejo/leio são pessoas desesperadas pedindo ajuda por novas estratégias para lidar com suas crianças. Exemplos: “Já tentei de tudo e meus filhos não param de se bater” ou “Meu aluno começa a fazer a maior baderna quando é hora de ficar em silêncio” e também “Me ajudem antes que eu surte!” entre outras…

Sabe aquele momento que você chega a pensar que a criança está fazendo aquilo SÓ para te provocar? Vamos lá, para todos nós não ficarmos loucos (eu sei bem como, às vezes, discutir com uma criança pode enlouquecer o mais são indivíduo).

Vim aqui pra te contar uma coisa: você não está louca (o), provavelmente ela está mesmo fazendo aquilo de propósito.

Mas lembre, sempre gosto de tentar entender a natureza do problema. Por cansaço, falta de tempo, vida pessoal, trabalho…acabamos reparando cada vez menos nas nossas próprias ações.

Pense na sua relação com essa criança: Como ela está? Desgastada? Quais os únicos momentos que você fala com ela? Para dar uma bronca, desencorajar, dizer que o que ela está fazendo é errado? Você já está com a paciência esgotada então tudo que vem dela parece já te tirar do sério? Estou exagerando aqui, e a maioria desses comportamentos a gente faz sem nem perceber…

Pois é, talvez essa criança só esteja implorando pela sua atenção, e já que ela não consegue de algum jeito positivo (ou não o suficiente, algumas crianças demandam mais atenção mesmo) elas vão cavar da maneira negativa, claro, já que ela sabe que é batata: “vou fazer meu irmãozinho chorar, minha mãe vai vir correndo aqui” ou “vou sair correndo agora que é hora de entrar, alguém vai vir me buscar”. E não se engane, a criança pode ter atenção da família, do seu parceiro, dos irmãos, mas o que ela pode estar querendo é a SUA.

Mas e agora? O que eu faço?

Bom, se você observou e chegou a conclusão de que aquela criança realmente está tendo esse tipo de comportamento para chamar sua atenção comece a elogiar e aumentar suas qualidades positivas, mostre a ela que você percebe quando ela faz uma coisa positiva: “Olha, gostei que você colocou seu sapato sozinha hoje” “Que legal você ter ajudado seu irmão a achar o pente”. Chame ela para participar das atividades que você está fazendo, mostre a ela que ela é importante e pode, inclusive te ajudar nas tarefas: “Preciso que você me ajude a cortar esse papel porque sozinha está bem difícil” Envolva a criança: “A mamãe precisa varrer o chão, você poderia esperar 10 minutinhos? Exalte tudo o que for positivo, mostre que você vai dar atenção a ela quando a atitude for positiva, fique feliz com as pequenas conquistas da criança e demonstre, é muito mais legal receber elogios do que críticas, não é mesmo? Reconheça os sentimentos: “Nossa você devia estar muito irritado para morder o seu amigo, né? mas não demonstramos raiva assim…”

Se você notar que uma criança precisa de mais atenção do que outra, não tem problema, dê a ela o que ela precisa. Somos diferentes, o que quer dizer que tratando duas crianças exatamente da mesma maneira, elas podem não dar as mesmas respostas. O que funcionou para você, para o seu irmão, para outro aluno ou para o seu filho mais velho pode não funcionar para o próximo.

Ah, claro, mais importante de tudo: educação é trabalho, é processo. Não adianta fazer isso durante 1 dia e já esperar resultado. Ah se fosse fácil…

 

Meu filho só fala: “não” – o que será que ele quer dizer?

Sabe aquela criança que tudo que você pede ela fala não? Até mesmo quando ela quer fazer aquilo, parece que a única palavra que ela sabe falar é não?

Primeiro vamos nos perguntar como nos relacionamos com as crianças diariamente; quais são as palavras/frases/expressões que mais usamos? Será que nós mesmos não usamos expressões muito negativas?

Por exemplo: quando uma criança está fazendo algo que não “devia”, como nos comportamos? Dizemos que ela não pode fazer o que faz, não é mesmo? Como? Focando no que ela está fazendo de errado ou no que ela poderia estar fazendo certo?

Vou te mostrar como podemos reformular nossas frases, sem ser tão negativos o tempo todo, e ainda trazendo soluções para as atitudes que não deveriam estar acontecendo. Se você mostra para a criança o que ela deveria fazer ao invés do que ela não deveria estar fazendo surte muito mais efeito, e ainda desenvolve uma relação bem melhor entre vocês dois.

Muito simples: vou explicar!

Se a criança está derrubando a comida do prato no chão o que eu falo: “Não pode derrubar comida no chão”, como eu posso repensar essa frase? “Comida fica dentro do prato”. Falei a mesma coisa sem usar conotação negativa.

“Não pode correr”  —> agora é para andar

“Não grita”   —-> estamos em um ambiente fechado, usamos a voz baixa

“Não pode bater no amigo/irmão”  —-> tratamos o outro com gentileza, carinho e amor

“Não fale de boca cheia” —-> quando comemos não falamos, espere acabar de comer para falar

Estão vendo quantas vezes falamos não sem perceber? O que a criança mais escuta é o que ela vai reproduzir, concorda? É um exercício constante e diário, nós acabamos muito nervosos e cansados até para tratar o outro com mais paciência e compreensão. Vamos tentar fazer um esforço para pensar e reformular as nossas frases antes de falá-las. Não é fácil, mas te convido pra esse desafio!

Sobre controlar as emoções – será que devemos controlá-las? 

Que parte da nossa vida pulamos que hoje, adultos, não conseguimos expor qualquer sentimento que não seja felicidade? Por que temos tanto medo de nos mostrar vulneráveis? Capazes de nos frustrar, sentir medo, tristeza e raiva? O que isso tem a ver com uma tendência a diagnosticar todo sentimento que não foi bem externalizado como doença psicológica e tratamentos psiquiátricos? 

Me pergunto todos os dias em que momento poderíamos ter aprendido a controlar as nossas emoções melhor, mas sempre me deparo com a mesma constatação. Quem foi que disse que nossas emoções precisam ser controladas? Quem foi que te disse que existem sentimentos que não devem ser sentidos? 

Vamos voltar lá atrás, na infância (claro) 

Quantos adultos já te disseram pra engolir o choro? Que aquilo que te preocupava não era motivo de preocupação? Que você não podia sentir raiva que fazia mal pro estômago? Que “já passou, não foi nada”. “Não precisa chorar, olha aquele passarinho!” Isso é reprimir!! Fomos ensinados a não sentir!! 

Agora me explica qual a vantagem de passar a vida inteira tentando esconder os sentimentos?  Ao invés de aprender como lidar com eles? Óbvio que uma hora você explode, na minha visão não há nada mais natural do que o corpo entrar em colapso. E é assustador o quão cedo as pessoas estão entrando em colapso hoje em dia. 

Estou aqui para fazer um apelo (mais um): 

Não vamos mais falar o que falaram pra nós quando crianças, precisa falar que não está dando certo? Vamos mudar o discurso, que tal? 

RECONHEÇA O SENTIMENTO: Empatia DIRECIONE A CRIANÇA PARA UM LUGAR SEGUTO QUE ELA POSSA EXPRESSAR ESSE SENTIMENTO 

– Chora mesmo se você está triste, vai deitar ali no travesseiro e chore o quanto você quiser.

– Não precisa explicar para ninguém, chorar faz bem. Estou aqui se quiser conversar. 

– Nossa, isso deve ter doído. Consegue se levantar? 

– Nossa que nervoso que você deve estar passando, quer ir no banheiro gritar? 

 – O meu corpo não é para chutar/bater/morder. Vem aqui que eu te mostro uma bola que você pode chutar porque está nervoso. 

Ser professor é…

Ser professor é o motivo pelo qual eu larguei meu diploma de publicitária.

É perceber que o mundo já é muito superficial para não se preocupar com Educação.

É entender que tudo, tudo, tudo tem saída, tem jeito, tem solução.

É amar a profissão.

É se valorizar quando ninguém mais faz.

É se apaixonar pelas pessoas.

É se apaixonar mais ainda por aqueles que não sabem o quanto eles precisam de você.

É saber que muitas vezes você é a única pessoa que acredita no seu aluno.

É lutar pelo outro e não julgar.

É se preocupar com o outro, é cuidar.

Não é fazer, é ensinar como se faz.

É debater, ler, pensar na melhor forma.

É se reinventar todos os dias.

É assumir que errou e começar tudo de novo, diferente.

É aprender muito mais do que ensinar.

É incluir, pertencer, conhecer.

 

Mas principalmente, é transcender amor! Educação é só amor!

Feliz dia dos professores ❤

Meu primeiro incêndio (de verdade) em uma Day Care no Canadá

Escrevi de verdade porque aqui o que não falta é treinamento de incêndio. Em todos os lugares, bastou alguém resolver disparar o alarme (o que aparentemente é uma coisa bem comum aqui) pra ter que evacuar a área, esperar os bombeiros investigarem e só daí poder voltar. Portanto, todos conhecem muito bem o procedimento de evacuação em caso de incêndio. Mas e aí quando o negócio é de verdade?

Bom, era mais um dia normal na escola com as crianças até que um barulho ensurdecedor disparou. Não é exagero! Sabe aqueles barulhos agudos no máximo volume? Pois é, sem pausa, completamente descontrolado. Parei por alguns segundos, porque tava difícil até de pensar e me liguei: “Ah, alguém disparou o alarme”, pensei.

Na loja que eu trabalho acontece 1 vez por mês, então já estou acostumada com o processo todo. Mas peraí, não tem criança, não tem problema, rs. Quando eu me levantei para começar a organizar mentalmente todos os passos (criança, casaco, fila…) senti um cheiro de queimado muito forte. Ferrou.

Olhei para os lados, minhas professoras estavam correndo, mas tudo na maior calma. Pegaram um berço e começaram a colocar todas as crianças dentro dele. Parecia um filme, mas todas as pessoas se movimentavam precisamente e rapidamente e tudo se ajeitou tão rápido que eu não precisei fazer nada. Quando acabou meu estado de choque, que eu juro, durou uns 15 segundos, as crianças já estavam sendo levadas (em 1 berço de rodinhas) para fora da escola. As professoras só o empurravam.

“O Nolan ficou dormindo no berço!” Alguém gritou. Rapidamente todos se olharam, e a única pessoa que estava fazendo absolutamente nada era eu. “Elisa, vai pegar o Nolan”, aí sim teve grito. Saí correndo, peguei a criança que, acredite, estava dormindo com toda aquela confusão e carreguei ele no colo até a porta de saída. Todos me esperaram, e assim que eu cheguei abriram a porta e saímos todos juntos.

Lembrei que eu morava no Canadá quando percebi que estava de manga curta e hoje fez 8 graus de manhã. Mas ainda bem que no Canadá isso é o de menos e, junto com os 5 caminhões de bombeiros, chegaram os cobertores com furos na cabeça (em mais ou menos 3 minutos). E lá estávamos nós. Várias professoras descalças no meio da rua, carregando berços cheios de crianças com cobertores com furos na cabeça.

Foi isso. Os bombeiros resolveram tudo, voltamos pra escola e o dia continuou como se nada tivesse acontecido. Ah, pra quem quis saber, o incêndio foi na cozinha do andar de cima do nosso…

Meu filho dá trabalho pra comer – Venha ler algumas dicas do que fazer!!

Você é daquelas mães que implora pro seu filho raspar o prato? Fica dando a comida na boca, negociando o prêmio que ele vai ganhar se comer tudo? Fica extremamente preocupada, se ele não come no horário que você estipulou para a refeição, enche ele de besteiras só pra ele não ficar sem comer nada? Chocolate, salgadinho, bolacha…só pra garantir que ele não vá morrer de fome?

Pois é, deixa eu te contar uma coisa bem dura de ouvir: o seu comportamento faz com que o seu filho não coma direito. É você que tem que mudar, e o quanto antes. Uma coisa que eu aprendi aqui no Canadá foi: ser BEM MAIS firme com as crianças e não menosprezar a inteligência delas. Não dê chance e nem motivo para a birra. Primeiro de tudo, sobre a comida:

1- NUNCA devemos ensinar as crianças que elas precisam comer até se estufar. Isso é um comportamento que devemos aprender desde pequenos e não “desaprender” quando adultos. Não estou mais com fome: não preciso mais comer. Simples assim. Quem sabe quando acabou a fome? Somente a pessoa que está comendo. Imagina alguém enfiando comida na sua boca e você sem aguentar mais comer? Incentive a autonomia e o conhecimento do próprio corpo. A criança deve saber quando está com fome e também quando não aguenta mais comer.

2- Coloque o momento da refeição na rotina da casa: todos os dias no mesmo horário e com todos sentados na mesa (todos que estiverem na casa, pelo menos). Comer assistindo TV, jogando no tablet enquanto alguém te alimenta, não são maneiras de criar um ambiente saudável. Coma você na frente do seu filho, as mesmas coisas que ele está comendo: seguir o modelo é o melhor jeito de ensinar.

3- Escolha um cardápio variado e deixe sempre muitas opções na mesa: não estou falando de várias proteínas, menu de restaurante. Mas coloque várias opções, não precisa ter sido feito na hora: salada, pão, arroz/macarrão, fruta, vegetais diversos. Uma das coisas o seu filho vai comer. E não precisa ficar o forçando a comer os vegetais, acontece naturalmente. Precisa experimentar, uma mordida só para conhecer o gosto.

4- Deixe o seu filho se servir: ele coloca no prato o que quiser e a quantidade que quiser. Respire fundo neste item se na hora já pensou na bagunça que ele vai fazer: é importante.

5- Não use a comida como negociação de nada: exemplo: “vai ficar sem almoçar se fizer isso”, “só vai ter sobremesa se comer a comida até o final”. A criança precisa entender que não está te fazendo um favor quando ela come, ela come por uma questão fisiológica, é pra ela mesma.

6- Não dê comida na boca: encoraje o seu filho a comer sozinho desde que começar os alimentos sólidos. Corte em pequenos pedaços para que ele possa comer usando as mãos e vá iniciando os talheres aos poucos.

7- Não tem comida fora do horário: não quis comer na hora do almoço? Azar o seu, vai ter que esperar o lanche da tarde. Você pode adiantar um pouco a próxima refeição, mas não abrir exceção porque ele fez um escândalo e se jogou no chão. Use o seu julgamento, em caso de enfermidade, mas o principal é seguir a rotina todos os dias.

Não vamos encorajar ainda mais a ansiedade na comida, comer deve ser para matar a fome e não para deixar a mamãe feliz. Incentive a autonomia da criança, desenvolva um relacionamento desde pequeno com a comida. Rotina é importante, todos os dias no mesmo horário. Não amoleça, a firmeza é importante para que a criança não ache que ela pode mandar em você. Muito difícil? Não vai dar conta? TENTE. Dê uma chance e me escreve contando como foi!

O dia que adotamos um filhote

Eu vivo estudando, pesquisando novas práticas, debatendo com colegas da área e sempre chegamos a uma mesma conclusão: é muito complicado. Sempre me pergunto: imagina para pessoas da área de exatas? Meu namorado, por exemplo, engenheiro e virginiano.

Semana passada adotamos um cachorro, o Bruce. Assim como diz seu ascendente, Humberto (meu namorado) capricorniano racional, é vidrado em técnicas de adestramento e educação mais rígidas possíveis. Mas com o pequeno filhote? Fiquei nervosa de cara, já comecei a gralhar sobre os traumas que aquele pequeno cérebro carregaria por toda a sua vida, entrando nas entranhas do desenvolvimento saudável e as relações familiares…

Perdi, claro. Não fiz faculdade de veterinária, ele dizia.

Deixei. Me convenci que não queríamos um cachorro que mandasse na casa, dormisse na cama e subisse no sofá. Assumi a responsabilidade em ser cúmplice de uma educação restritiva, opressora e sem regalias.

Primeiro dia: fomos ao veterinário. O Doutor avaliou nosso filhote e na hora de dar tchau, nos deu um papel com 6 páginas: “Manual do filhote”. Humberto vibrava de emoção, já deu um manual nas mãos de um virginiano?

Chegamos em casa, Humberto já tinha lido o manual 500 vezes, repetindo mentalmente: consistência, firmeza, repetição, consistência, firmeza, repetição…

No quarto dia ele me chamou: precisamos conversar. Vamos mudar a estratégia (de novo) Qual a sua ideia? Eu dei risada – estou rindo até agora – Realmente, esse negócio de Educação é muito complicado.

Quem dera viesse assim, com manual.

 

 

Questão de higiene – Como evitar que a criança fique doente o tempo todo

Quem trabalha com Educação Infantil ou tem filhos pequeno sabe que essa é uma fase que a criança fica doente quase que 100% do tempo. Mas por que isso? Chama-se fase oral, toda criança passa, o que significa que absolutamente TUDO o que ela vir pela frente, vai colocar na boca.

Mas então devemos impedir que as crianças coloquem as coisas na boca? JAMAIS!!! A fase oral é importantíssima para o desenvolvimento, significa que a criança está explorando. Explorar para eles não é só olhar e sentir com as mãos…é muito além, eles querem sentir o gosto, a textura, o formato, e tudo isso é feito com a boca (é por onde vem meu alimento, é a primeira parte que a criança aprende a usar depois que nasce).

O que nós fazemos é procurar adaptar o ambiente ao máximo para que eles possam se desenvolver sem ficar muito doentes. Antes que os “educadores raíz” venham me criticar, dizendo que as crianças precisam desenvolver anticorpos, eu concordo com vocês. Nunca conseguiremos evitar todas as doenças, gripes, febres e afins…mas o contágio sim. Sabe aquela virose que todo mundo pegou? Dá pra não pegar!

Tirar os sapatos ao entrar nos ambientes:

Sempre tenha um sapato que sirva só para ficar em casa e outro só para sair (caso você se incomode em ficar em casa de meias ou descalço). Quando for à escola do seu filho, também certifique-se que esses cuidados estão sendo tomados e não vá lá você, entrar na sala com o sapato que veio da rua.

Lavar as mãos com sabão:

Essa parece óbvia, mas muitas pessoas não sabem como lavar as mãos de verdade. Lavar as mãos com sabonete passando por todos os dedos, dentro das unhas contando até 45 (desliga a torneira quando estiver esfregando, mas tem que molhar a mão antes). Todas as vezes que assoar o nariz do seu filho, ou de outra criança, lavar as mãos. Todas as vezes que entrar em um ambiente novo, lavar as mãos. Antes de comer, lavar as mãos. Todas as vezes que encostar em lixo, sujeira: lavar as mãos.

Higienizar os brinquedos passados pela boca das crianças:

Parece exagero? Eu juro que não é! Fique de olho, se tiver mais de uma criança brincando com o mesmo brinquedo e ele for pra boca, guarde-o em cima da pia para mais tarde passar álcool (falei mais tarde porque normalmente se faz isso ao final de cada dia, já higieniza todos de uma vez). Spray de álcool com água, passa um paninho e depois só deixa água escorrer e secar naturalmente.

Higienizar as superfícies:

Mesa de comida: pano com álcool antes e depois de comer. A comida cai na mesa (e tem que cair mesmo, não adianta querer que uma criança não derrube comida fora do prato). Armário onde ficam os brinquedos, todas as superfícies que os brinquedos encostam antes de passar pela boca da criança, isso inclui o chão.

 

Culpa: saia deste corpo que ele não te pertence!

Ontem li uma entrevista com uma psicanalista que diz: “Estar sempre com os filhos não é o melhor para os filhos”. (clique aqui para ler na íntegra).

A gente sabe que a psicanálise vem como um soco na cara, mas depois de absorver o golpe, a dor passa e te faz refletir. Aí que está o segredo. O maior soco na cara, pra mim, foi ler: “Precisamos ter uma boa relação com as nossas escolhas.”

Por que será que é tão difícil viver com o nosso presente? Por que será que vivemos pensando no que poderíamos ter feito diferente, ou antecipando problemas que poderão surgir no futuro? Fazemos isso o tempo todo, mas quando surgem os filhos então… É uma culpa atrás da outra, começa no momento que descobre que está grávida e não acaba nunca mais.

E se eu perder o bebê porque fiz tal coisa?

E se eu não comer o que estou com vontade?

E se eu não conseguir amamentar?

E se eu colocar na escola muito cedo?

E se eu voltar a trabalhar muito cedo?

Precisamos começar a – tentar – (já que é um processo longo e trabalhoso) viver com as nossas escolhas, aceitá-las e não ficar as remoendo. Um exemplo: voltei a trabalhar porque acabou a licença maternidade. Outro exemplo: Decidi deixar meus filhos na escola integral. É a melhor alternativa? Não existe melhor alternativa, existe a sua. Repita isso como um mantra sempre que a culpa surgir. Não adianta ficar pensando em saídas que não são viáveis (por qualquer que seja o motivo), reflita, tome a (sua) melhor decisão e assuma: primeiro pra você, depois para o mundo.

Vamos tomar um banho de confiança e acreditar que só nós podemos, e devemos, fazer as nossas escolhas. Afinal, a vida é sua, o filho é seu. Quem poderia ser melhor do que você? Ninguém!

Mas e a sociedade? E minha família? Meu amor, a sociedade vai julgar QUALQUER escolha que você tomar, acredite. Não existe melhor escolha, existe a minha. As pessoas mal resolvidas (e as vezes as bem resolvidas também) sempre vão ter o que falar. Mas é aquela história, não podemos mudar a reação do outro, mas podemos mudar como reagimos com a reação do outro. Confuso? Um pouco.

O importante é fortalecer a sua relação consigo mesmo. Quanto mais certeza você tiver das suas escolhas, menos você se sofrerá. Difícil? Muito! Mas quem disse que viver é fácil?

 

“Livros infantis com personagens humanos são melhores para o desenvolvimento social” diz pesquisadora da Universidade de Toronto, Canadá

Essa semana uma amiga me mandou um artigo daqui da Universidade de Toronto, eu achei tão interessante e tão coerente com a nossa realidade que resolvi compartilhar.

A pesquisa feita pela Universidade de Toronto acredita que livros com ilustrações de personagens baseados em animais, por exemplo: Franklin, a tartaruga e Ursinho Pooh não são tão efetivos no desenvolvimento do comportamento social infantil, quanto Dora, a aventureira.

“Crianças aprenderão mais através de livros com personagens com as quais elas possam se identificar, que os represente,” diz pesquisadora Patricia Ganea “Portanto, uma personagem humana, ao invés de um animal vestido de humano.” É mais difícil se identificar com um porquinho falando, do que com uma outra criança.

Crianças se identificam com crianças, cada um com o seu histórico: diferentes famílias, cores, roupas, sentimentos, religiões… Os animais não conseguem explorar todos esses aspectos, além de criar uma falsa impressão de que podemos nos relacionar com os leões, por exemplo, ou que podemos ser amigos de uma girafa…

Mas isso não significa que os pais devam abolir os livros de animais, mas expandir a literatura infantil, diversificar a qualidade dos livros. A mensagem não é que não devamos ler livros de fantasia – estes são fantásticos e deverão sim ser explorados. Mas que além dos livros de fantasia, vamos também procurar livros que representem gêneros diferentes, outro status social, várias cores de pele…

A matéria completa está aqui:

http://www.cbc.ca/news/canada/toronto/uoft-storybook-research-1.4256881?platform=hootsuite